quinta-feira, 16 de junho de 2011

O silêncioso exercício de semear bibliotecas



Na próxima sexta-feira, dia 17, às 11h30, a poetisa Marize Casto estará autografando o seu mais recente trabalho, resultado da sua dissertação de mestrado em Educação. O livro intitulado O silencioso exercício de semear bibliotecas é um ensaio sobre Zila Mamede e o seu trabalho de implantação de bibliotecas públicas do RN, que resultou na criação das principais bibliotecas do nosso Estado, incluindo a da Universidade Federal e a Estadual Câmara Cascudo.



Soneto para a construção do arranha-céu
Zila Mamede 
 
Os braços de concreto vão crescendo
como pensassem nuvens conversar.
Dedos crispados, poros gotejantes,
os braços de concreto vão-se erguendo.

Longamente se formam, projetando
-se em organismo estranho e vertical:
injetados de areia, mágoa e ferro
os braços de concreto estão chorando.

Atiram-se tranqüilos nos espaços:
são hastes de grandeza, ângulos de força,
ou de mutilação de humanos braços.

Estruturando pedras e cimento,
os braços de concreto, nus, se vestem
de fantasmas de morte e sofrimento.

Vinho
Marize Castro

Se o queres seco
para molhar a garganta
eu o quero suave
para reinventar
essa chama
se o queres branco
para velar a virgem
eu o quero
vermelho
do porto
para aportar
as paixões
que me dividem

domingo, 5 de junho de 2011

Entrevista com a escritora Nivaldete Ferreira


 
A escritora Nivaldete Ferreira concedeu-nos uma entrevista nesta última quarta-feira, dia 01. A poetisa falou sobre o seu primeiro romance, Memórias de Bárbara Cabarrús (2008), e os seus trabalhos com a poesia, teatro e a música, além do seu prazer pela pintura e fotografia. Abordou também a sua relação com a palavra e como se origina o seu texto, discutindo temas como estilo e o seu fazer poético. Nivaldete, que também é professora do Departamento de Artes da UFRN, falou sobre as suas “máscaras” e o desapego de seus livros, lembrando dos seus caminhos que vão desde Nova Palmeira (PB) até a sua chegada em Natal – “Memórias são ácidos e brinquedos. Mais ácidos que brinquedos, talvez”.


Pet - Como, quando e por que começou a escrever? Como nasceu a escritora?
Nivaldete F. - Eu acho que a gente nunca sabe por que quer escrever, eu acho que é um vício, talvez pelo gosto da leitura. Pode derivar daí o gosto por escrever. Eu acho que é querer experimentar aquilo que experimentou lendo, experimentar fazendo, produzindo, é como quem come um pão e quer fazer o pão com todo o atrevimento. E como eu nasci em Nova Palmeira que, no tempo, nem cidade era, a leitura era a minha diversão, era o meu parque de diversão, era o que eu tinha para fazer. Então eu acho que me entreguei muito e comecei a escrever por uma necessidade, escrevi até sobre a praia sem ter visto praia, só de ouvir falar. Minha mãe falava de uma menina perdida numa praia, a menina era eu que já estava perdida e não sabia.


Pet - Como se origina um texto seu?
Nivaldete F. - Vou começar de Sertania. Quando eu mudei para cá eu senti uma certa saudade de lá, uma saudade que eu, mais uma vez, fui resolver com palavras, e senti vontade de escrever, não mais em prosa mas numa provável poesia, numa possível poesia, a lembrança, o vivido lá. Em Trapézio e outros movimentos é diferente, é um livro de leitura difícil até para mim mesma hoje. Mas é que na época eu estava bastante tocada por Cummings e Paul Celan que têm uma escrita muito difícil, se bem que eu leio com a tradução, mas o poema é sempre muito difícil. E o prefácio de Paul Celan que eu tinha, eu guardei tão bem guardado que parece que às vezes eu escondo de mim só para encontrar depois. O prefácio dizia que Paul Celan escrevia de uma forma propositalmente obscura, difícil, porque a linguagem coloquial, comum, já não comunica mais, ela já se esgotou como auxiliar poética. E eu gostei muito daquilo, prestei muita atenção e escrevi Trapézio e outros movimentos, e muitas pessoas diziam: “muito complicado esse texto, de se entender”, mas não é poesia para se gostar, é para provocar, para desagradar, para desacostumar, descondicionar o leitor. Se bem que eu não escrevi com esse objetivo, eu escrevi daquela forma porque estava naquele momento, era o que eu tinha para fazer e busquei o meu inconsciente, porque eu queria escrever. E o crítico Foed Castro Chamma fez uma apreciação muito interessante do meu livro, uma análise muito boa no sentido de que ela elucida, ajuda a compreender o poema e até a mim própria. Ele disse que foi pela via da semiótica e da psicanálise porque se não fosse por esse caminho restaria um beco fechado. Que às vezes acontece isso, a poesia é como um lance de dados, se a gente for buscar sempre poemas que a gente não tenha dificuldade de entender é uma acomodação também, existem tantas possibilidades. Por que a gente precisa sempre escrever poemas que sejam de fácil leitura, de fácil compreensão? Depois eu me rendi, no meu blog só tem poemas de fácil apreensão, eu acho, mas Trapézio é algo à parte. Hoje eu tenho estima por ele, eu digo que fui até corajosa, pensei: “vou colocar isso na lata do lixo, isso não tem nada poético”. Mas isso salvou a minha pele, alguém com teoria conseguiu abrir uma porta de compreensão para aquilo que eu tinha feito.  

Pet - Qual é a sua relação com a escrita, com a palavra, com o estilo?
Nivaldete F. - É muito mutante. Não me prendo a alguma temática, é aquilo que vai passando. E acho que confere um pouco com aquela compreensão da linguagem. Não gosto de poema auto-referenciado, gosto da coisa mais livre que fale como uma voz que não seja minha, que não fale de mim. Quanto ao estilo, eu acho que não é mais preciso falar sobre isso hoje, com tanta quebra de parâmetros. É a invenção da hora. Às vezes eu consigo fazer um poema com uma rima imprevista e difícil e possível, outras vezes o poema sai totalmente livre, até um pouco tosco. Eu não me preocupo com uma dicção poética.

Pet - Por que escrever?

Nivaldete F. - Porque a vida em si não basta. Não basta o trabalho, não basta ter filhos, não basta ter amigos, não basta sol, não basta lua, não basta chuva. Escrever é alguma coisa de que a gente tem sede, tem falta, e que a gente procura saciar um pouco, com a escrita, pintando ou desenhando, compondo, com a arte de um modo geral. Outras pessoas vão para o religioso. Sempre há uma falta para o ser humano e essa falta é o que faz o mundo girar, é isso que faz os cientistas dedicarem a sua vida a inventos, a pesquisas, o sentido da falta é o que move o mundo, a insatisfação, e cada um se resolve como pode, o poeta escreve, o pintor pinta as suas telas, enfim, criar. Criar no sentido amplo, não só na arte. Criar sorrisos, criar amizades, criar convivência boa, criar soluções e deixar de pensar em problemas. Nietzsche diz que a arte mais importante do ser humano é o da sua existência, aquilo que ele faz com a sua existência e eu concordo.

Pet - Como você enxerga um livro seu depois de publicado?
Nivaldete F. - É um filho de maior que sai de casa. Tem que haver o desapego e aceitar que ele vá para a rua como sendo maior de idade, de preferência que ele seja bem falado. É praticar o desapego.

Pet - Como nasceu Bárbara Cabarrús, a personagem principal do seu primeiro romance?

Nivaldete F. - Eu tinha feito uma cirurgia e estava de repouso e queria ler alguma coisa que eu ainda não tinha lido. Comprei uma pequena enciclopédia e deixei lá, até que um dia comecei a folheá-la e encontrei um verbete sobre Teresa Cabarrús, uma espanhola que foi para a França e que participava da vida política, uma mulher, para a época, bem avançada, e me deu um desejo de criar uma personagem que fosse descendente dela, criar uma ficção com uma personagem que fosse daqui, do Rio Grande do Norte. E Bárbara nasceu assim.

Pet - Tem algum livro de outro autor que você gostaria de ter escrito?
Nivaldete F. - Eu acho que não um livro todo, mas alguns poemas, sim. Às vezes eu leio uma coisa e acho tão bonito e penso: “poxa, queria ter escrito isso”. Mia Couto é um autor maravilhoso e eu adoraria ter escrito algumas coisas dele. Eu gosto muito de Drummond, por exemplo, mas tem muita coisa dele que eu não gostaria de ter escrito, não fazia nenhuma questão. Mas têm outras que eu gosto muito. Na verdade eu acho é que a humanidade é que escreve. Existe uma pessoa que briga pela sua autoria, por um nome, mas é a humanidade que escreve e nós somos a humanidade. E no final é melhor admirar do que desejar.

Pet - Qual é o papel que o imprevisto desempenha em seu trabalho criador? E se desempenha.
Nivaldete F. - Às vezes é ele que move, que produz, que leva a gente a produzir como uma busca de reequilíbrio, de transformação.

Pet - Além das obras já citadas, você tem um trabalho com teatro e também musical. Conte-nos um pouco sobre eles.
Nivaldete F. - Em 1980, eu comecei a fazer o mestrado, tinha acabado de me formar e fui para a Universidade Federal de Minas Gerais, e lá eu escrevi uma peça que foi encenada por uma estudante da PUC de lá. Depois escrevi uma peça para crianças e com ela ganhei o primeiro lugar num concurso da prefeitura. Em 2007, a editora da UFRN publicou Entre o carrossel e a lei, também teatro. É outra forma de escrever, é bem mais ágil, bem mais rápido, você não precisa se preocupar com os detalhes, de como está o céu, a hora do dia, etc. É uma experiência instigante porque nela se tem uma prontidão, uma velocidade maior do que o texto em prosa que é mais detalhada. E além de teatro, também produzi músicas para criança e uma obra paradidática sobre as águas. E eu também componho músicas para adultos. Só me falta representar.

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Diva Cunha


Tenho que me revelar
Antes que fique doida
Antes que fique santa
Assim mortal
Serei igual
A tantas

Na próxima quinta-feira, 2 de junho às 20h, a poetisa Diva Cunha deixará de ser “igual a tantas”, pois entrará para o rol dos imortais. A poetisa tomará posse na Academia Norte-rio-grandense de Letras, ocupando a cadeira de nº 30, que tem como patrono Monsenhor Augusto Franklin e que foi ocupada por Manuel Rodrigues de Melo e Aluízio Azevedo.

DANAIDES

De todas (eram cinqüenta), só uma tinha clitóris.
Os outros quarenta e nove a tradição extirpara.
Por isso, só uma não derramou o sangue do homem,
preferiu pingar nos panos umas gotinhas do seu.

As danaides mataram seus maridos na noite de núpcias,
porque para elas o mel da libido foi estancado.
As filhas do ditador foram cúmplices
dos assassinatos de seus homens,
porque para elas  mel da libido foi estancado.

A moça que explodiu matando muitos,
para ela não foi prometido prazer no céu,
nem na terra, pois já não tinha o mel da libido.

O clitóris é a única chance de paz.
Daí toda violência jorrar da mutilação,
ânfora com furos por todos os lados.

CARMEN VASCONCELOS

Carmen Vasconcelos nasceu em 21 de junho de 1965, na cidade de Angicos – RN. É formada em Serviço Social e Direito, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atualmente é colaboradora do jornal Tribuna do Norte. Publicou três livros de poesia: Chuva Ácida 2000, Destempo 2002 e O Caos no Corpo 2010.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Entrevista com o escritor Sérgio Fantini

Escritor Sérgio Fantini

Em passagem por Natal para o lançamento do seu livro Silas pelo selo Jovens Escribas, comandado pelo escritor potiguar Carlos Filho, o autor mineiro Sérgio Fantini concedeu uma entrevista ao grupo PET Literatura do Rio Grande do Norte de Letras da Universidade Potiguar – UnP. Numa entrevista descontraída, Fantini falou sobre a sua relação com a literatura e sobre o seu novo livro.

Pet - O seu livro, Silas, é o resultado da junção da novela “Diz xis” e mais quatro contos com o mesmo personagem. Por que resolveu reunir os contos e a novela num livro só, uma vez que eles foram publicados em anos e livros diferentes? Existe uma relação entre eles?
Sérgio Fantini - A relação principal que existe é o próprio personagem. Esse livro Silas é a biografia desse personagem. Agora, em 2011, faz 20 anos que eu publiquei a novela "Diz Xis", e quando pensei em republicar a novela para comemorar esses 20 anos e comemorar os meus 50 anos de idade, me lembrei que tinha mais dois contos com Silas, dois contos mais recentes que são "Silas 30 do 2º tempo" e "Silas 10". Esse "Silas 10" foi publicado no meu último livro de 2008, que se chama A ponto de explodir, e “Silas 30 do 2º tempo” estava inédito. Quando eu juntei estes três momentos de Silas eu falei: "tenho quase que uma biografia", porque no "Diz xis" o personagem tem uns 18 anos, em “Silas 30” ele tem 30 anos e em “Silas 10” ele tem 50. E enquanto eu estava revisando e pensando nesse personagem, fazendo uma revisão dele e da minha própria experiência literária, me lembrei desses dois outros contos que eu tinha publicado na Antologia contos jovens, da Editora Brasiliense, de 1976, e me dei conta que o personagem desses dois contos já era o Silas. Ele nasceu com o nome de Alberto da Fonseca Júnior, tinha outro nome, mas era o mesmo personagem. Aí eu falei: "Pô, ele já era o Silas, o cara!", então eu reescrevi esses dois contos também e agora eu tenho o livro Silas com a mãe dele contando uma historinha de quando ele tinha perto dos dezoito anos; tem um conto escrito pelo Silas, que ele escreveu para mandar para um concurso, depois vem "Diz xis" que é ele próprio contando uma aventura que viveu no carnaval e depois o Silas dos 30 e 50 anos. Então montei uma biografia com o interesse de só republicar o "Diz xis", que seria uma questão para minha satisfação, para comemorar meu aniversário. Pensei até em fazer independente, por minha conta, uma tiragem pequena, uma coisa minha, para os meus amigos, porque o "Diz Xis" foi muito bem recebido em 1991. Recebi comentários positivos do Rubens Fonseca, do Raduan Nassar, praticamente todos os meus companheiros de geração, todo mundo gostou muito, foi muito legal. Eu ia fazer isso, mas, quando montei essa biografia, vi que tinha um conteúdo maior, e nesse momento eu já tinha conversado com o meu amigo Carlos Fialho, que é o editor da Jovens Escribas, e ele topou a idéia e a gente fez uma parceria para colocar a biografia de Silas na rua.


Pet - Fale um pouco sobre A ponto de explodir.
Sérgio Fantini - A ponto de explodir é uma reunião de contos que eu vinha escrevendo no ano de 2005, 2006, 2007, e publiquei em 2008. É uma coletânea de contos, não tem uma unidade temática, são contos escritos por mim em determinado período e que também foram muito bem recebidos. E depois vem o "Silas 30" o "Silas 10".


Pet - Como é que você se tornou escritor?
Sérgio Fantini - Eu comecei publicando poesias, escrevendo poesias quando eu tinha 9 anos de idade, e fui escrevendo, escrevendo, e me dei conta de que tinha um trabalho de literatura. Quando eu estudava, no Colégio Batista, mineiro, o professor Albanito, a quem dedico o Silas, porque é um livro de resgate, foi muito importante para mim. Porque eu fazia poemas, mas não tinha consciência de que fazia literatura, era uma coisa pessoal só, era uma satisfação pessoal escrever os poemas que eu escrevia. O professor Albanito mandava a gente fazer redação toda semana, fazer jogral, ler. Toda a semana, eu tinha livro para ler e, sem saber, ele foi o meu formador como escritor, ele me deu consciência do que eu fazia. Fui aluno dele em 1974, 1975, uma coisa assim, e, em 1976, eu fiz um folhetim de poesia por xerox na firma onde eu trabalhava. Com isso conheci algumas pessoas que tocavam violão e escreviam poemas,e a gente formou um grupo, o grupo Canções. A gente fez show, participou de festivais, de apresentações de poesias, de teatro, a gente fez um grupo mesmo de arte e resolvemos, em 1979, fazer um livrinho. Eu fiz o meu primeiro livrinho e dois colegas também, mas esses dois não escrevem mais, só eu continuei. Então como tive uma resposta muito boa desse primeiro livro, continuei a publicar, me tornei escritor, me assumi, percebi melhor o que eu fazia quando publiquei esse livro em 1979, que era de poesia. E desde essa época, quis escrever prosa, mas só consegui em 1985. Durante todo esse período, entre 1979 e 1985, publiquei sete livros de poemas e depois publiquei mais dois, em 1997, resgatando o material que ficou inédito desse período. Depois em 2002, pela editora do Joca Terron que queria publicar alguma coisa comigo, a gente fez Coleta seletiva, livro com os melhores momentos dos oito livrinhos que eu tinha publicado até então.


Pet - Pretende publicar poesia?
Sérgio Fantini - Por enquanto não, como diz o Marcelo Aquino “deixa a poesia para os verdadeiros poetas”.


Pet - Qual o sentido da literatura na sua vida?
Sérgio Fantini - A literatura é a minha vida, o que existe de importante para mim, minha relação com o mundo é através da literatura. Eu tenho também um trabalho como produtor cultural desde 1976, mas na literatura é onde me realizo, me entendo, me comunico com o mundo. O que dá sentido para mim é escrever e conseguir escrever, não só publicar, mas o próprio ato de escrever. A minha realização se dá na consumação de um texto literário. E o trabalho com a linguagem é tudo também, a literatura é linguagem, literatura não é só um monte de histórias interessantes. Literatura para mim é um trabalho de linguagem. Eu dou oficinas de literatura em Belo Horizonte há algum tempo e falo isso o tempo inteiro para as pessoas, porque elas chegam querendo escrever para contar histórias de suas vidas. Você pode contar o seu caso, mas, se não trabalhar a linguagem, você não está fazendo literatura. Então o meu trabalho com a linguagem é extremamente obsessivo, o que eu puder ter de recursos que possam render, que possam ser úteis para o meu texto, eu tenho. Sou um revisor obcecado também, eu reviso os textos que estão saindo. Agora em Silas, textos, que já tinham sido publicados, foram relidos umas vinte vezes, até o último momento, eu estava mudando vírgula. Eu sonho, eu fico obcecado até a hora de publicar.


Pet - Qual a sua opinião a respeito do ensino da literatura na escola?
Sérgio Fantini - Eu acho que tudo o que é feito pela literatura é relevante. Eu estava conversando hoje com Carlos Fialho, que é preciso que a gente discuta cada atividade que se faz com a literatura, quando se escreve um poema, quando se escreve um texto, quando se publica, quando se faz um sarau, festival. Qualquer coisa que se faça pela literatura, disputando espaço na cabeça das pessoas, é relevante, porque tem muita coisa no sistema que está dizendo para você: “não leia”, “literatura não é relevante”, “vá jogar vídeo-game”, “vá jogar futebol”, “vá nadar”, “vá comprar uma roupa nova”, “vá passear no shopping”, “vá ver televisão”, “faça um monte de coisa”. “nunca leia”, “nunca escreva”, “nunca tente se expressar através da literatura”. Então quando a gente faz alguma coisa com a literatura a gente está tentando passar o que a gente acredita que é bom. Então o ensino da literatura, ensino formal, é positivo que exista e, assim como qualquer outra coisa sujeita a variações, ela pode ser boa e pode ser ruim. Tem uma crítica já bastante aceita de que a literatura no ensino fundamental, ensino médio, não é boa porque colocam autores que não dialogam com a cabeça da moçada, como foi o meu caso também. A gente lê coisas que não têm a ver com o que a gente está vivendo, e o que o jovem vai pensar, “literatura é um porre”, “não quero saber desse negócio”, “só tem coisa chata”, “é tudo horrível”, “literatura é chata”, “não quero mexer com eles, prefiro curtir um outro lance, sacou?”. E não é assim, a literatura pode ser prazerosa, o ensino da literatura pode ser prazeroso desde que seja feito um diálogo mais eficaz, principalmente com a mentalidade da juventude, para crescerem com o prazer da literatura, que é um super prazer. A gente, que já passou pela experiência, sabe que é prazeroso ler, escrever, e, no entanto, muitas vezes no ensino é colocado como uma coisa chata, assim como a gramática, que eu acho que a gente aprende muito cedo. É como ensinar como o seu fígado funciona, a criança vai ficar apavorada. Assim é a linguagem, a linguagem é prazerosa, é bonita, mas eles falam com a gente logo cedo “oração subordinada, oração coordenada sintética”, “que diabos é esse trem?”. Quando a gente é menino a gente tem que aprender o prazer da comunicação, da frase bem construída, do verbo, isso que é bacana. Então o ensino da literatura, voltando à sua pergunta, pode ser muito bom, desde que ele seja feito num diálogo mais competente com a mentalidade do estudante.


Pet - É possível viver só de literatura?
Sérgio Fantini - Tem gente que vive só de literatura, mas, lembrando, que só de literatura significa um conglomerado de atividades, porque só de direito autoral é muito difícil. Eu tenho amigos que analisam isso, trabalham em editoras, que estão por dentro dos bastidores do mercado, e afirmam categoricamente que só de direito autoral quase ninguém ou pouquíssima gente vive. Porque direito autoral são 10% do preço de cada livro. Então para alguém ganhar, para pagar as contas, três mil reais por mês, imagina quantos livros ele tem que vender por mês, é uma enormidade. O que acontece é que as pessoas que se dedicam a viver só de literatura fazem orelhas, prefácios, antologias, cobram por cada palestra, que é um trabalho. Elas têm uma renda no periférico da literatura, que é uma coisa super bacana, uma coisa legal, as pessoas assumirem que vão viver disso, traduções, enfim, várias possibilidades de ganho através da literatura.




PERGUNTAS RÁPIDAS


Pet - Literatura?
Sérgio Fantini - Prazer.


Pet - Inspiração?
Sérgio Fantini - Não existe.


Pet - Personalidade?
Sérgio Fantini - Que seja forte.

sábado, 21 de maio de 2011

Sejam todos bem recebidos

Os alunos do Pet Literatura do Rio Grande do Norte, da Universidade Potiguar (UnP),  colocam no ar o blog Literatura do Rio Grande do Norte, visando disponibilizar textos literários, entrevistas com escritores e divulgar as atividades do grupo. Convidamos todos a fazerem parte do nosso universo literário.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Para refletir...

O TONEL DAS DANAIDES

“As Danaides eram cinqüenta filhas de Danao, rei de Argos. Seu irmão, Egito, tinha cinqüenta filhos. Mandou a filharada masculina casar com as primas. Danao não queria o casamento. Combinou com as filhas um plano A.
     Os cinqüenta recém-casados tiveram a mais estranha noite de núpcias de que há notícias no mundo.
     Foram todos assassinados pelas esposas. Só escapou um, Linceu, poupado por sua mulher, Hipernestra.
     Júpiter condenou as Danaides às penas do Tártaro, que era o Inferno daquele tempo.
     As Danaides enchiam um tonel sem fundo. Séculos e séculos, sem pausa, sem descanso, interrupção, as moças carregavam água, despejando-a no barril furado.
     Teodoro de Banville contou o fim dessas Danaides, na Lanterna mágica.
     Os Titãs venceram os Deuses. O Tártaro ficou sem chefe, despovoado de sofredores, todos perdoados.
     Astperio anuncia a terminação da sentença:
     - Acabou vosso suplício. Largai essa penitência. O tonel está cheio.
     As Danaides pararam, pela primeira vez, há milênios. Enxugaram a fronte, descendo as bilhas infatigáveis. E dizem confusas e desapontadas :
     - Está cheio o tonel? Pois bem! Que havemos de fazer? Já estamos habituadas com o trabalho contínuo, mesmo inútil.
     Não perguntem, pois amigos, por que escrevo sempre, com ou sem leitores, com ou sem compreensão, estímulo ou tolerância.
     Deixem-me com o meu barril sem fundos. A tarefa finda significaria o repouso incômodo, a displicência, a preguiça mortal.
     Por isso, mesmo sem ter ofendido Apolo, encho, obstinado e tranquilo, a talha imperfeita, escondido num recanto de província.
     Quando não mais ouvirem o rumor da água agitada, não se dirá que Júpiter sucumbiu.
     Será que, para sempre, desfaleceu na Morte, o braço humilde do trabalhador...”

Crônica de Luís da Camara cascudo publicada a 25 de setembro de 1943, em A República.
Disponível em:http://www.memoriaviva.com.br/cascudo/lsobre02.htm (acesso em: 19/05/11).