sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Grupo PET entrevista Gisele Werneck e Rinaldo de Fernandes


O projeto Cais da Leitura e o grupo PET Literatura do RN, em parceria com o selo Jovens Escribas, receberam os escritores Gisele Werneck (MA) e Rinaldo de Fernandes (MA) para uma conversa com alunos do 4º Centenário e com estudantes do Curso de Letras da Universidade Potiguar – UnP. Gisele Werneck estava de passagem por Natal acompanhando o marido, Danilo Perrotti, que está dando a volta ao mundo de bicicleta, e foi convidada por Carlos Fialho, escritor potiguar, para um bate-papo sobre literatura ao lado de Rinaldo de Fernandes, Doutor em Teoria e História da Literatura pela UNICAMP, e professor da UFPB que veio lançar o seu livro de contos O professor de piano. Gisele, que é atriz, diretora e roteirista, inclusive dos seus próprios curtas, já atuou em novelas - a última foi Duas Caras -, também estava divulgando o seu mais recente romance Onde Judas perdeu as botas. Na ocasião, os bolsistas do grupo PET – Literatura do RN, Canniggia Carvalho e Liliane Tavares, alunos de Letras do 4º período, entrevistaram os dois escritores.



Gisele Werneck

Foto: Fernanda Grigolin

PET - Como surgiu o seu interesse pela Literatura e quando se descobriu escritora?



GW - Eu venho, como todo escritor, da leitura. Sempre li. Essa coisa de ser mineira, a casa sempre cheia de livros de autores mineiros, como Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino. Na verdade, eu nunca pensei em ser escritora, eu tinha outros planos para o meu futuro. Sempre fui mais ligada à área da cena, a minha formação é em teatro, só que eu tinha uma necessidade expressiva muito grande, tinha que estar sempre criando. Tem até uma cena do filme Contos Proibidos do Marquês de Sade, que ele escrevia com o que tinha, com sangue, com vinho, e eu tinha uma necessidade expressiva que o teatro não supria, então, desde muito nova, eu anotava poesia, fazia um conto, até que um dia eu pensei: “vou fazer um romance”. Eu já tinha escrito uns contos, e fluiu muito, e as pessoas diziam que eu tinha fôlego para um romance, então, eu comecei a escrever. Eu sou ficcionista, eu gosto de escrever, no máximo, conto, poesia eu não me arrisco.



PET - Sobre os seus personagens. Como eles nascem? Você já levou algum deles para as telas?



GW - Sim. Eu venho da área da cena e do teatro, do cinema, e eu fazia curtas que eu mesma escrevia, dirigia e atuava, então eu já sabia como o personagem ia falar. Sempre escrevo personagens femininos e, com o livro Onde Judas perdeu as botas, eu fiz o meu primeiro personagem masculino, o que foi um grande desafio para mim. Foi bem legal, acho até que cresci como pessoa, alimentei o meu lado masculino. Eu parto para escrever de sensações minhas. Até admiro autores que partem para escrever de algo bem distante, porque eu parto de um motivo interno, uma pergunta sobre a vida, algo que me mova, é assim que eu crio o personagem.



PET - E as suas influências na escrita?



GW - Eu acho que isso é vivo, vai mudando. Eu comecei com muita influência da Clarice Lispector, Jean Paul Sartre. Li Sartre quando tinha 13 anos e a minha tia, que é pedagoga, falou para o meu pai: “isso não vai ser bom para ela” (risos). Foi uma influência muito existencialista para mim. o existencialismo foi uma influência muito importante para mim. Depois, um pouco mais velha, já fui para uma influência de linguagem, comecei a ler formas que me interessavam, como Julio Cortazar, e o próprio Guimarães Rosa que tinha os dois: a forma, que é fantástica, e a vibração interna “da coisa”, a filosofia  mesmo. Eu acho que é isso.



PET - Como surgiu o romance Onde Judas perdeu as botas?



GW - Onde Judas perdeu as botas vem da coleção “Que Viagem”. O Marcelino Freire chamou dez escritores para viajar a lugares onde só escritores podem ir, e ele me convidou para ser a primeira. Ele falou que eu podia escolher o destino que eu quisesse. Podia ir para o fundo do poço ou até para o inferno. E eu quis ir pra onde Judas perdeu as botas porque o assunto que me move é o assunto religioso, histórico, cultural, assuntos da humanidade em geral.



PET - Essa é a sua linha, os temas que envolvem religião, cultura?



GW - Eu ainda estou aprendendo a ver o que eu mesmo escrevo, eu não sei se isso é uma linha, agora é que eu estou começando a observar que isso me move muito, esses assuntos do “macro”, temas religiosos, de culturas, civilizações.



PET - Fale-nos um pouco sobre os seus outros títulos.



GW - O Guerreiras de Gaia, um romance juvenil, de 2006, surgiu num momento em que eu nem pensava em ser escritora. É como hobbie. Tem gente que joga tênis, e eu fui escrever um livro (risos). Nessa época eu já lia muito sobre mitologia, teosofia, os mitos do mundo, e o título foi por causa disso, o livro conta a história de cinco garotas que fazem um treinamento de guerra para salvar o planeta, Gaia (a mãe terra para os gregos). Aí vem o Onde Judas Perdeu as Botas, que partiu desse meu questionamento do sentido da vida, que a morte é algo que fica soprando no meu ouvido: “nós vamos morrer”. E eu criei esse personagem que já teve e experimentou de tudo bom e ruim, até que ele cansou, descobriu que só ia encontrar um sentido se ele inexistisse, que não é morrer, é inexistir. E ele não queria mais ter que existir, evoluir, melhorar, e descobriu esse lugar “Onde Judas Perdeu as Botas”, que é tão longe que nem existe. Então, eu faço um guia de viagem para inexistir, um passo a passo para a inexistência. E agora eu estou com um romance novo, que ainda não foi lançado, escrito pela bolsa de criação da Funarte, que se chama A queda da Machamba. Fala de uma menina que cresceu numa fazenda em Minas Gerais, que sofreu um trauma e vai morar em Londres. Ela tem uma vida “perdida”, e faz uma viagem pelas antigas civilizações do mundo, Egito, Grécia, Turquia. Quanto mais ela viaja pelas ruínas, mais ela viaja em direção ao passado, e vai entrando em Minas Gerais, naquela geografia fazendeira, até que chega ao ponto que a rompeu em duas.



PET - A escrita foi conseqüência do teatro ou o teatro foi conseqüência da escrita?



GW - A escrita foi conseqüência do teatro. A escrita me deu uma liberdade muito grande, o que, em compensação, me trouxe solidão. Porque a escrita é um ato “só”, e isso, às vezes, me dá muita angústia, eu e o computador e o computador e eu. É um pouco angustiante.

PET - Fale um pouco sobre a sua experiência como atriz.



GW - Eu comecei como atriz de teatro e fiz um curso técnico de cinema, e o audiovisual sempre me puxou. Fiz também televisão, novela, durante quatro anos. Até que veio aquela fase da vida em que a gente fala: “vai acontecer alguma coisa comigo, a minha vida vai mudar radicalmente”, e desde a última novela que eu fiz, a minha vida realmente mudou, e hoje eu vivo de escrever, atuando muito pouco, na verdade. Só quando é uma coisa que me chama, que me move.



PET - No seu site você se intitula viajante. De que forma essas experiências são incorporadas nas suas atividades artísticas (literatura, cinema)?



GW - Eu já tinha reparado que os filmes que eu fiz eram sempre filmes em movimento, é raro eu fazer uma história parada, eu estou sempre em movimento, e o meu marido é um viajante, deu a volta ao mundo de bicicleta, coisa que eu não teria coragem de fazer por minha conta. Com isso, eu conheci muitos lugares. Depois eu li a biografia da Clarice Lispector, e vi que ela viajava bastante com o marido dela que era diplomata, o Guimarães Rosa que também era diplomata, e eu acho que isso realmente te enriquece, porque você relativiza tudo. Como a Índia que é outra cultura, outros deuses. Você aprende a enxergar melhor a sua realidade, acho que isso alimenta muito a criatividade.




Rinaldo de Fernandes



Foto: Danilo Perrotti Machado



PET - Por que escrever?



RF - Escrever é, antes de tudo, uma necessidade. Necessidade de ordem existencial, filosófica, moral e até orgânica. Quem escreve de verdade, escreve com a alma e com o corpo, assim como o faz o bom leitor. O bom leitor lê com toda a atenção do mundo – é, realmente, quase uma leitura com o corpo. O ato de escrever pressupõe isso, a resolução de problemas que envolvem desde uma fantasia poética, um dado fantasioso que se impõe como imagem, até a comunicação de idéias, de pensamentos. O escritor quer sempre passar uma mensagem de ordem histórica, social, filosófica, estética, etc. Escrever requer muita verdade, pois a criação talvez seja o ato mais puro do ser humano. Escrevendo você atinge as pessoas, mexe com os dados obscuros da alma humana – e isso deve ser tratado com honestidade, com cuidado, enfim, com muita verdade. Se não há verdade, o leitor sente. E escrever é, efetivamente, uma vocação – vocação como chamamento. Você é chamado, com sua sensibilidade, com suas inclinações mais profundas, para estabelecer uma visão das coisas através da escrita. Eu acredito que a força da literatura reside na verdade. Ninguém escreve por diletantismo, por pura vaidade. Se o faz, a coisa não fica, não tem força, pois, repito, não transmite verdade. Não que a vaidade não atinja todos nós, inclusive os escritores. Todo escritor é vaidoso, mas, para o verdadeiro escritor, o ato de escrever é muito mais profundo do que isso.



PET - Existe o momento ideal para a escrita? Como você cria?



RF - No meu caso, existem alguns mecanismos desencadeadores da criação. Certa vez, tive um impulso criativo, entrei correndo num supermercado para comprar um caderno e nele registrar as imagens e primeiras cenas que deram origem ao conto “Procurando o carnaval”, que consta do meu livro O perfume de Roberta, de 2005. Foi uma experiência intensa, obsessiva, de transe mesmo. Outra vez, quando escrevi o conto “Rita e o cachorro”, fui tomado por uma imagem forte, por uma atmosfera mágica (é esta a palavra). Eu estava em casa numa noite de sábado, sentado no sofá com a minha mulher, quando ela disse a seguinte frase: “aquela minha amiga, quando se separou do marido, foi para Santa Catarina, morar numa praia com um cachorro”. Fui assaltado pelo ambiente da praia, da mulher ali, numa casa, com o cachorro. A partir dessa frase eu escrevi o conto, que também consta de O perfume de Roberta, e o conto gerou o romance Rita no Pomar, finalista do Prêmio São Paulo de Literatura de 2009. Portanto, a partir de uma frase, e de uma imagem contida nela, foi desencadeado um processo de escrita que gerou um romance. As imagens, sobretudo as ambientais, são pontos fortes na minha criação. Há imagens que se apoderam de mim, como uma força incontornável. Guimarães Rosa se referia à criação como uma espécie de transe. É a macumba de cada um (risos). Julio Cortázar falava que alterava o regime normal da consciência na hora de criar. Existem momentos na criação que são mediúnicos mesmo. Talvez aí entre o mistério da criação.



PET - Você acredita na inspiração?



RF - Eu acredito, não da forma romântica, da criação como um sopro divino, mas como um processo que envolve inspiração e transpiração – porque literatura é forma, resulta das operações com a linguagem. Eu acredito que existe um impulso, algo que é uma motivação inicial, e que é sempre (ou quase sempre) imponderável. É claro que depois entra a operação com a linguagem – operação racional e exaustiva. Às vezes eu passo uma semana, e até mais, tentando resolver uma frase, um parágrafo de um texto meu. Eu sou extremamente artesanal com a escrita. Sei que se você consegue juntar o momento da inspiração com o do artesanato você faz a obra.





PET - E os seus personagens? Como eles surgem?



RF - No caso da Rita, como já disse, foi a partir de uma imagem, mas existem outras formas. Eu tenho um conto, intitulado “Negro”, que virou um curta (ainda em fase de conclusão) dirigido por um cineasta de João Pessoa. Eu escrevi esse conto quanto morava em Fortaleza. Numa palestra na Universidade ouvi um depoimento de um senhor, um negro, que havia passado num concurso público e que ainda não tinha sido chamado. Ele estava desconfiando que havia preconceito. A partir daí, eu escrevi o conto “Negro”, e o escrevi com muita raiva, com revolta. Mas é uma história contada sem piedade, até porque o contista tem que ser impiedoso – ninguém faz literatura com piedade. Quando vou construir um personagem eu não o faço com piedade, não sou franciscano, porque a verdadeira literatura é impiedosa.



PET - Além de escritor, você também é professor de Literatura e Doutor em Letras. Acha que o ofício de educador o influencia no trabalho com a escrita?



RF - Eu também sou crítico e até já escrevi sobre isso, sobre os escritores que ensinam, na minha coluna “Rodapé”, que publico há cerca de 7 anos no jornal Rascunho, de Curitiba, e no Correio das Artes, de João Pessoa. Muitos escritores brasileiros da atualidade são ou já foram professores universitários, como é o caso de Milton Hatoum, Cristóvão Tezza, Affonso Romano de Sant’Anna, Silviano Santiago, Nelson de Oliveira, Tércia Montenegro, entre outros. Cito-os para dizer que os dois ramos não são incompatíveis. No meu caso, o criador é muito beneficiado pelo professor. O meu material de professor, de uma forma ou de outra, eu canalizo para a minha produção, não só crítica. É um saber que aproveito enquanto criador. Não quero dizer com isso que você precisa ser professor de literatura para ser escritor, mas que são atividades perfeitamente compatíveis e que uma pode contribuir para a outra.



PET - O Rinaldo professor pesa na hora de escrever?



RF - Não, o professor não pode ser tão impiedoso ou mesmo canalha (risos) como o escritor. O registro literário é, como eu já falei, impiedoso. Na sala de aula, eu preciso de um padrão para desenvolver o trabalho com os textos. Como professor de literatura, sou sobretudo um intérprete. Daí precisar ser mais objetivo, argumentativo – e utilizar um padrão de linguagem, em princípio, mais culto. Mas na hora da criação, por estar na pele (e na linguagem) dos personagens, eu preciso me revestir de outro padrão, de outro regime. Meu conto “Confidências de um amante quase idiota”, que também está em O perfume de Roberta, tem um personagem bastante canalha, machista, e eu, ao que tudo indica, não tenho nada a ver com ele. Mas, na hora de escrever, tive que estar na pele dele e de toda a cafajestice que ele possui. Portanto, como escritor, tenho que tirar essas amarras morais e ir atrás daquilo que a vida tem sobretudo de imoral, de injusto, de imperfeito. A arte não é imoral, a vida é que é imoral. Eu, neste momento, tenho um projeto no twitter (@Ufernandes), onde posto um microconto todo dia. Alguns dos meus alunos me acompanham, comentam esses microcontos. Mas eu vou logo explicando: “ali é o escritor, não é o professor”. Os registros são diferentes. Se você escrever com moralismos não vai atingir o âmago da literatura. Com moralismos você sequer vai ler Madame Bovary (risos).



PET - Qual é o seu posicionamento sobre a Literatura nas escolas?



RF - O ensino de literatura se prende muito aos estilos de época. O aluno é levado a decorar as características desses estilos e a ler fragmentos de alguns autores que os representam – e pronto, está resolvido. Isso é uma grande falha. É preciso tornar o ensino de literatura mais contextualizado, vívido. Se você pega sonetos satíricos do Gregório de Matos e os compara com os de um poeta da atualidade (Glauco Mattoso, por exemplo), operando portanto dois contextos, o do Brasil colônia e o do Brasil contemporâneo, consegue ter uma ótima aula de literatura. Os alunos vão gostar desse tipo de comparação. Vão se reconhecer ao identificar, no processo, o contexto em que eles vivem. Se você, além da contextualização, liga a literatura a outros textos, temas ou disciplinas, consegue torná-la muito mais interessante em sala de aula. Não existe coisa mais prazerosa do que trabalhar um conto de Machado de Assis em sala de aula. Desde que seja uma leitura aprofundada, com critérios, operando relações. O ensino da literatura demanda criatividade e informação por parte do professor.



PET - Existe uma discussão sobre o que é a Literatura. Você, professor, Doutor e escritor, o que pensa sobre isso?



RF - Creio que essa discussão não interessa tanto ao escritor como ao professor. O professor precisa começar o seu trabalho entendendo, de algum modo, o que seja a sua disciplina. A literatura integra as artes e um texto literário se encerra formalmente (embora não exclusivamente) num dos três gêneros: o lírico, o épico (narrativo) ou o dramático. Em qualquer dos gêneros em que o autor escreve, precisa se utilizar, em grau maior ou menor, de ficcionalidade. Ou seja, a literatura é produto, em maior ou menor grau, do imaginário, da fantasia do escritor. Além disso, ela se empenha, para dizer mais ou menos como Antonio Candido, em interpretar esferas da nossa realidade.


segunda-feira, 15 de agosto de 2011

PETianas em seminário internacioal

As petianas Luanna Ferreira, Eliana Barbosa, Fátima Lopes, Thalita Machado e Arly Silva participaram do XIV Seminário Nacional Mulher e Literatura e V Seminário Internacional Mulher e Literatura – Palavra e Poder: RepresentAÇÕES literárias, realizado de 04 a 06 de agosto, na Universidade de Brasília. Na ocasião, apresentaram pôsteres sobre Nísia Floresta, Zila Mamede e a Via Láctea de Palmyra e Carolina Wanderley.
 

Eliana Barbosa e Luanna Ferreira

Fátima Lopes

Thalita Machado e Arly Silva

quinta-feira, 16 de junho de 2011

O silêncioso exercício de semear bibliotecas



Na próxima sexta-feira, dia 17, às 11h30, a poetisa Marize Casto estará autografando o seu mais recente trabalho, resultado da sua dissertação de mestrado em Educação. O livro intitulado O silencioso exercício de semear bibliotecas é um ensaio sobre Zila Mamede e o seu trabalho de implantação de bibliotecas públicas do RN, que resultou na criação das principais bibliotecas do nosso Estado, incluindo a da Universidade Federal e a Estadual Câmara Cascudo.



Soneto para a construção do arranha-céu
Zila Mamede 
 
Os braços de concreto vão crescendo
como pensassem nuvens conversar.
Dedos crispados, poros gotejantes,
os braços de concreto vão-se erguendo.

Longamente se formam, projetando
-se em organismo estranho e vertical:
injetados de areia, mágoa e ferro
os braços de concreto estão chorando.

Atiram-se tranqüilos nos espaços:
são hastes de grandeza, ângulos de força,
ou de mutilação de humanos braços.

Estruturando pedras e cimento,
os braços de concreto, nus, se vestem
de fantasmas de morte e sofrimento.

Vinho
Marize Castro

Se o queres seco
para molhar a garganta
eu o quero suave
para reinventar
essa chama
se o queres branco
para velar a virgem
eu o quero
vermelho
do porto
para aportar
as paixões
que me dividem

domingo, 5 de junho de 2011

Entrevista com a escritora Nivaldete Ferreira


 
A escritora Nivaldete Ferreira concedeu-nos uma entrevista nesta última quarta-feira, dia 01. A poetisa falou sobre o seu primeiro romance, Memórias de Bárbara Cabarrús (2008), e os seus trabalhos com a poesia, teatro e a música, além do seu prazer pela pintura e fotografia. Abordou também a sua relação com a palavra e como se origina o seu texto, discutindo temas como estilo e o seu fazer poético. Nivaldete, que também é professora do Departamento de Artes da UFRN, falou sobre as suas “máscaras” e o desapego de seus livros, lembrando dos seus caminhos que vão desde Nova Palmeira (PB) até a sua chegada em Natal – “Memórias são ácidos e brinquedos. Mais ácidos que brinquedos, talvez”.


Pet - Como, quando e por que começou a escrever? Como nasceu a escritora?
Nivaldete F. - Eu acho que a gente nunca sabe por que quer escrever, eu acho que é um vício, talvez pelo gosto da leitura. Pode derivar daí o gosto por escrever. Eu acho que é querer experimentar aquilo que experimentou lendo, experimentar fazendo, produzindo, é como quem come um pão e quer fazer o pão com todo o atrevimento. E como eu nasci em Nova Palmeira que, no tempo, nem cidade era, a leitura era a minha diversão, era o meu parque de diversão, era o que eu tinha para fazer. Então eu acho que me entreguei muito e comecei a escrever por uma necessidade, escrevi até sobre a praia sem ter visto praia, só de ouvir falar. Minha mãe falava de uma menina perdida numa praia, a menina era eu que já estava perdida e não sabia.


Pet - Como se origina um texto seu?
Nivaldete F. - Vou começar de Sertania. Quando eu mudei para cá eu senti uma certa saudade de lá, uma saudade que eu, mais uma vez, fui resolver com palavras, e senti vontade de escrever, não mais em prosa mas numa provável poesia, numa possível poesia, a lembrança, o vivido lá. Em Trapézio e outros movimentos é diferente, é um livro de leitura difícil até para mim mesma hoje. Mas é que na época eu estava bastante tocada por Cummings e Paul Celan que têm uma escrita muito difícil, se bem que eu leio com a tradução, mas o poema é sempre muito difícil. E o prefácio de Paul Celan que eu tinha, eu guardei tão bem guardado que parece que às vezes eu escondo de mim só para encontrar depois. O prefácio dizia que Paul Celan escrevia de uma forma propositalmente obscura, difícil, porque a linguagem coloquial, comum, já não comunica mais, ela já se esgotou como auxiliar poética. E eu gostei muito daquilo, prestei muita atenção e escrevi Trapézio e outros movimentos, e muitas pessoas diziam: “muito complicado esse texto, de se entender”, mas não é poesia para se gostar, é para provocar, para desagradar, para desacostumar, descondicionar o leitor. Se bem que eu não escrevi com esse objetivo, eu escrevi daquela forma porque estava naquele momento, era o que eu tinha para fazer e busquei o meu inconsciente, porque eu queria escrever. E o crítico Foed Castro Chamma fez uma apreciação muito interessante do meu livro, uma análise muito boa no sentido de que ela elucida, ajuda a compreender o poema e até a mim própria. Ele disse que foi pela via da semiótica e da psicanálise porque se não fosse por esse caminho restaria um beco fechado. Que às vezes acontece isso, a poesia é como um lance de dados, se a gente for buscar sempre poemas que a gente não tenha dificuldade de entender é uma acomodação também, existem tantas possibilidades. Por que a gente precisa sempre escrever poemas que sejam de fácil leitura, de fácil compreensão? Depois eu me rendi, no meu blog só tem poemas de fácil apreensão, eu acho, mas Trapézio é algo à parte. Hoje eu tenho estima por ele, eu digo que fui até corajosa, pensei: “vou colocar isso na lata do lixo, isso não tem nada poético”. Mas isso salvou a minha pele, alguém com teoria conseguiu abrir uma porta de compreensão para aquilo que eu tinha feito.  

Pet - Qual é a sua relação com a escrita, com a palavra, com o estilo?
Nivaldete F. - É muito mutante. Não me prendo a alguma temática, é aquilo que vai passando. E acho que confere um pouco com aquela compreensão da linguagem. Não gosto de poema auto-referenciado, gosto da coisa mais livre que fale como uma voz que não seja minha, que não fale de mim. Quanto ao estilo, eu acho que não é mais preciso falar sobre isso hoje, com tanta quebra de parâmetros. É a invenção da hora. Às vezes eu consigo fazer um poema com uma rima imprevista e difícil e possível, outras vezes o poema sai totalmente livre, até um pouco tosco. Eu não me preocupo com uma dicção poética.

Pet - Por que escrever?

Nivaldete F. - Porque a vida em si não basta. Não basta o trabalho, não basta ter filhos, não basta ter amigos, não basta sol, não basta lua, não basta chuva. Escrever é alguma coisa de que a gente tem sede, tem falta, e que a gente procura saciar um pouco, com a escrita, pintando ou desenhando, compondo, com a arte de um modo geral. Outras pessoas vão para o religioso. Sempre há uma falta para o ser humano e essa falta é o que faz o mundo girar, é isso que faz os cientistas dedicarem a sua vida a inventos, a pesquisas, o sentido da falta é o que move o mundo, a insatisfação, e cada um se resolve como pode, o poeta escreve, o pintor pinta as suas telas, enfim, criar. Criar no sentido amplo, não só na arte. Criar sorrisos, criar amizades, criar convivência boa, criar soluções e deixar de pensar em problemas. Nietzsche diz que a arte mais importante do ser humano é o da sua existência, aquilo que ele faz com a sua existência e eu concordo.

Pet - Como você enxerga um livro seu depois de publicado?
Nivaldete F. - É um filho de maior que sai de casa. Tem que haver o desapego e aceitar que ele vá para a rua como sendo maior de idade, de preferência que ele seja bem falado. É praticar o desapego.

Pet - Como nasceu Bárbara Cabarrús, a personagem principal do seu primeiro romance?

Nivaldete F. - Eu tinha feito uma cirurgia e estava de repouso e queria ler alguma coisa que eu ainda não tinha lido. Comprei uma pequena enciclopédia e deixei lá, até que um dia comecei a folheá-la e encontrei um verbete sobre Teresa Cabarrús, uma espanhola que foi para a França e que participava da vida política, uma mulher, para a época, bem avançada, e me deu um desejo de criar uma personagem que fosse descendente dela, criar uma ficção com uma personagem que fosse daqui, do Rio Grande do Norte. E Bárbara nasceu assim.

Pet - Tem algum livro de outro autor que você gostaria de ter escrito?
Nivaldete F. - Eu acho que não um livro todo, mas alguns poemas, sim. Às vezes eu leio uma coisa e acho tão bonito e penso: “poxa, queria ter escrito isso”. Mia Couto é um autor maravilhoso e eu adoraria ter escrito algumas coisas dele. Eu gosto muito de Drummond, por exemplo, mas tem muita coisa dele que eu não gostaria de ter escrito, não fazia nenhuma questão. Mas têm outras que eu gosto muito. Na verdade eu acho é que a humanidade é que escreve. Existe uma pessoa que briga pela sua autoria, por um nome, mas é a humanidade que escreve e nós somos a humanidade. E no final é melhor admirar do que desejar.

Pet - Qual é o papel que o imprevisto desempenha em seu trabalho criador? E se desempenha.
Nivaldete F. - Às vezes é ele que move, que produz, que leva a gente a produzir como uma busca de reequilíbrio, de transformação.

Pet - Além das obras já citadas, você tem um trabalho com teatro e também musical. Conte-nos um pouco sobre eles.
Nivaldete F. - Em 1980, eu comecei a fazer o mestrado, tinha acabado de me formar e fui para a Universidade Federal de Minas Gerais, e lá eu escrevi uma peça que foi encenada por uma estudante da PUC de lá. Depois escrevi uma peça para crianças e com ela ganhei o primeiro lugar num concurso da prefeitura. Em 2007, a editora da UFRN publicou Entre o carrossel e a lei, também teatro. É outra forma de escrever, é bem mais ágil, bem mais rápido, você não precisa se preocupar com os detalhes, de como está o céu, a hora do dia, etc. É uma experiência instigante porque nela se tem uma prontidão, uma velocidade maior do que o texto em prosa que é mais detalhada. E além de teatro, também produzi músicas para criança e uma obra paradidática sobre as águas. E eu também componho músicas para adultos. Só me falta representar.